sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Luto!

Luto
contra o que sinto
contra o que vejo
contra o que insiste em me corroer por dentro
os sentidos e as certezas
a escuridão e a clareza
a força e toda a minha surreal fraqueza
o medo e toda a sua doce beleza

Luto
pra não ser mais igual ao que fui
pra não cair do abismo em que me encontro à beira
pra buscar a luz no fim do túnel que não vejo
pra não me perder por entre as árvores secas do caminho que percorro
pra voar sem as asas de cera que roubei de Ícaro
pra ir além e alcançar o infinito dos teus olhos mais uma vez.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Entardecer


vi as cores do teu coração entardecerem
vi as dores do teu coração adormecerem
vi as asas do teu coração se abrirem
e alçarem o vôo mais alto que jamais imaginaram
.
vi a luz brilhar do fundo da tua alma
vi o sol se refletir nos teus belos olhos
senti o ar que respiravas calmamente
teu coração pulsava carinhosamente
.
eu vi a dor se dissipar da tua face
eu vi teu corpo repousar por sobre as flores
eu vi a paz tomando conta do teu ser
eu vi o mundo se espelhar na tua calma.


quadro do caro amigo Carlos Valença

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A decisão

- Joguei tudo pro alto. Desisti. Foge comigo?
- O que?
- Larguei tudo. Não tô cabendo mais aqui. Foge comigo? Vamos pra outro lugar.
- Isso é loucura!
- Eu sei! Mas por essa loucura que eu experimentei a liberdade. Vem, foge comigo!
- Não posso! E a vida que eu construí aqui? Família, casa, emprego... Não dá pra largar tudo agora.
- Clara, para com isso. É tudo o que você sempre quis, sair dessa prisão que se tornou a sua vida. Vem comigo.
- Não fala assim, Deco.
- Mas é verdade, Clara. Você é maior que tudo isso e também já não cabe mais aqui. Vamos embora desse lugar. Vem comigo, Clara! O mundo é nosso!
- Deco, bota esse pé no chão. Como a gente vai viver fora daqui? Sem lugar pra morar, sem conhecer ninguém, sem dinheiro... Deco, para de agir como criança. Você não tem mais idade pra isso. Me escuta...
- Me escuta você, Clara: cadê aquela menina sonhadora que sempre quis ser feliz? Pra onde foi a sua coragem? A sua vontade, Clara? O seu desejo de ser feliz? Você sabe que não é essa vida que você tá levando que vai te fazer feliz. Esse lugar é pequeno demais pra você, Clara. Você merece muito mais.
-  Deco... não fala assim. Eu... eu sou feliz aqui. Apesar de alguns problemas... eu... eu sou feliz, sim.
- Clara, não se engana com isso. Você se acostumou com essa vida. Seu lugar não é aqui!
- Deco, eu não posso...
- Clara, casa comigo!
- O que?
- CASA COMIGO, Clara! Eu te amo!
- Deco!
- Eu te levo pra ver o mundo, Clara. Casa comigo!

~ Carta para nós dois

Confesso, em algum lugar me afeta ter que ouvir e rir de tudo isso. Talvez eu realmente quisesse estar em um lugar diferente do que estou.
Sua paixão é clara e, ainda que doce, explícita. Mas, mesmo assim, não cabe a mim corresponder. A verdade é que você não se encaixa nos planos que eu fiz pra mim e não acho que seja justo te aprisionar a uma vida que não te cabe meramente por capricho.
Não posso te privar de fazer outros planos, de querer alguém que te faça feliz, de me esquecer. Você é o tipo de pessoa que merece ter sempre um motivo pra sorrir. E deve buscá-lo, sim!
Mas o meu egoísmo me traz em amarras tão surreais, que me vejo sem direção quando penso em você.
Tudo o que sei é que te quero sempre sorrindo. Te quero a pessoa mais feliz desse mundo. Te quero meu eterno ombro amigo, meu porto seguro. Te quero comigo. Te quero.
Então descubro que, todo esse tempo, o meu maior defeito foi te querer.
Mas agora me parece tarde. Tarde pra mim, porque, ainda que aos poucos, você foi ocupando o seu coração e reduzindo o meu espaço dentro dele. Tarde pra você, porque, mais uma vez, no auge do meu egoísmo, eu te deixei de lado. Tarde pra nós, porque talvez já não haja mais tempo.
E o que nos resta quando não há mais tempo? Fugir? Fingir? Desistir?
Eu desisto, desisto de fugir e de fingir. E assumo: eu te quero aqui.
Estou na porta de casa, brincando com as chaves. Até quando você vai demorar?

domingo, 8 de agosto de 2010

La fleur volée

me trouxe uma flor roubada, daquelas que tem mais graça. colhida no jardim do vizinho. daquelas que pulam do muro, pedindo pra serem roubadas. levadas à amada que espera no portão.
me trouxe um sorriso discreto, daqueles que tem mais graça. no canto da boca, sem graça, sem jeito, com medo de não aparecer. daqueles que são os mais sinceros e mais contidos. levados à frente quando não se tem mais o que oferecer.
me trouxe um abraço verdadeiro, daqueles que tem mais graça. forte, sincero, único, apaixonado. daqueles que falam por si e não precisam de tempo para terminar. levados ao extremo quando se ama e não precisa mais de palavras.
me trouxe o seu coração. porque já tinha, nele, o meu.

~ das melhores lembranças

Eu parei pra me lembrar de tudo o que fomos até aqui. E só consegui sorrir. Porque mesmo as brigas e lágrimas derramadas vieram pra estreitar o laço e enfeitar e colorir a nossa união.
De tudo o que vivi com você, os sorrisos sempre foram a melhor parte.

E ela

Chegou com olhar perdido de quem não conhece o caminho que faz. Seus olhos buscavam alguém ou algum indício de estar na direção certa.
No abrir de uma porta, seus olhos se encontraram: a certeza do objetivo alcançado e o sorriso de acolhida. A tranquilidade tomou conta de seu pequeno coração.

Do não pertencimento

O que antes era vital, essencial, já me parece sobrar.
Se ontem não vivia sem os antigos, hoje, mais do que nunca, preciso dos novos.
Sinto as asas presas, atadas, limitadas. Nem os sonhos cabem mais por aqui. Preciso de liberdade, espaço, vida nova!
Que a saudade seja combustível para afastar o esquecimento. Mas que os novos ares sejam necessários e alimentem os sonhos e renovem as forças para as asas jamais se fecharem.
O coração permanece, mas a alma precisa sair. O mundo me chama, já não pertenço mais a este lugar.

Preciso!

Já não pertenço.
A parte de mim que existia aqui foi pra algum lugar que não sei onde.
Preciso dela pra sobreviver. Não sou eu, subexisto.
Alguém fechou a porta e senti pular pela janela tudo o que me prendia e trazia sorriso e fazia viver.
Quero de volta. Preciso!
Já não me reconheço neste lugar, nestas pessoas, nestes fazeres. Preciso de volta as minhas asas libertas, abertas, cobertas de desejos e planos e vontade de voar.
Não sou o que fui, sou menos. Preciso de mais! Preciso de volta as minhas forças e vontades de crescer.
Preciso abrir as asas e voar. E sempre que for preciso, ter um lugar para onde possa voltar. Preciso do mundo que grita de dentro de mim querendo encontrar o mundo que existe aqui fora e espera minhas asas e sonhos em algum lugar.

~ Carta para o melhor presente

Meu melhor,

escrevo-te para dizer o que já sabes, ainda que eu nunca tenha dito com todas as letras.
O meu coração só se acalma quando converso contigo. E conto tudo aquilo o que me aflige ou alegra em demasia.
Mesmo tendo outros amigos, que me conhecem há muitos anos, que cresceram comigo, que me viram chorar e sorir por todos os motivos... mesmo te tendo há pouco tempo do meu lado... mesmo tendo passado, contigo, por todas as coisas que somente nós sabemos que passamos, é em ti que vejo meu sorriso mais sincero, é contigo que sou, verdadeiramente, eu. Sem máscaras, sem armaduras, sem polimento ou qualquer tipo de disfarce.
Agradeço por confiares a mim teus segredos, por seres puramente quem és, por mostrares tua alma à minha e seres sempre aquele com quem posso contar.
Agradeço por seres meu melhor amigo, confidente, salvador, parceiro de samba e de mesa de bar, companheiro de caminhada e aventuras, mão para atravessar a ponte, ombro para chorar ou dormir, abraço, sorriso, olho brilhando, gargalhada.
E desejo que o que construímos até aqui supere a distância que o tempo tenta impor e todas as mudanças por que, inevitavelmente, passaremos.

Um beijo com todo o meu carinho,
Tua Morena.