sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Gelo.

Era a segunda vez em três dias que me recusava um abraço. Mudava as feições como quem sente tristeza ao receber tamanho gesto de afeição, indesejado. Parecia envolvida em meus braços por obrigação. E repudiava qualquer sensação de bem estar que pudesse ousar perpassar sua mente. A frieza com que largava seu corpo ao meu corroía o fundo de minha alma. E o vazio que carregava no peito refletia em mim. Sua tristeza era perceptível somente a quem a conhecesse profundamente, como eu supunha conhecer. E ela nunca dissera o contrário. Seu coração era como pedra de gelo que não derretia, parecia congelar tudo o que tocasse. Mas o meu coração permanecia lá, intocável. Pronto para aquecer e modelar o dela.

domingo, 29 de agosto de 2010

O bilhete

e depois de tanto tempo
a cada dia que passa eu descubro um motivo novo pra me apaixonar por você
cada gesto, o jeito de olhar, o carinho, o cuidado, a atenção... tudo. tudo me dá vontade de te querer cada vez mais perto. cada vez mais pra sempre. cada vez mais meu.

Marionete.

Eu sou uma grande persona. Uma máscara. Uma personagem. Nem tudo o que você vê é como parece ser. Não se assuste se você descobrir que era tudo um truque de ilusionismo barato, só pra te convencer.
Eu sou uma esfinge. Ainda que te devore, você não vai me decifrar. Os segredos ocultos no interior dos meus olhos só são visíveis por dentro. Existo de dentro pra fora.
Eu sou uma farsa. Tudo o que você vê é mentira. E esse belo corpo? Mera carcaça. E essa voz doce? Disfarce. Esse sorriso escancarado? Engano.
Eu sou um grande erro. Aquele que cruzar o meu caminho não terá perdão jamais. Desgraçará a sua vida e não terá retorno. Nunca mais será o mesmo aquele que fitar meus olhos. Sucumbirá o desavisado que sorver o meu veneno.
Eu sou uma gárgula. Aprisionada ao meu coração de pedra, não sei amar e não permito aos que se aproximam conhecerem o doce sabor da liberdade. Vivo a carregar a dor de minhas pesadas asas de pedra que não me permitem voar.
Eu sou marionete embolada na estante. Esquecida pelo destino no fundo do baú com as cordas cortadas pra nunca mais sair do lugar.

sábado, 28 de agosto de 2010

Despedida...

Foi como cena de cinema. Passaram horas conversando embaixo da árvore como se não existisse no mundo nada além dos dois e seus pequenos grandes problemas.
Já não trocavam mais sorrisos, só dividiam uma angústia silenciosa que culminava em lágrimas e apertava os corações.
E no que seria uma despedida, ele fitou o céu nublado enquanto ela se desmontava a um canto da calçada. Mudos. Ninguém precisava falar. Pareciam ouvir o pensamento um do outro. Ou mais que isso: pensavam (e sentiam) a mesma coisa.
Mas apesar de toda a tristeza, no fundo, sabiam que não era o fim.

Carta para minha Estrela Guia

Sempre que posso, fico olhando o céu como uma forma de me lembrar da poesia. E tem feito noites lindas! Não sei se você tem tido tempo pra observar...
Hoje, em especial, depois de toda a correria desse período que insiste em não terminar, e de toda essa responsabilidade que vem junto com o 'crescer', me fez tão bem olhar aquele céu todo pintadinho de estrelas... e a primeira pessoa que eu lembrei quando vi aquele monte de luzinhas brilhando foi você.
E tudo o que eu mais quis naquele momento foi jogar o mundo pro alto e passar a noite abraçada com você em qualquer lugar longe daqui em que pudéssemos ver as estrelas e nada mais. E eu senti uma paz tão grande, só de pensar em você... que não sei explicar! Só queria dizer o quanto eu te amo e o quanto você é importante na minha vida. Espero poder, de fato, passar o resto dela do seu lado e construir uma realidade que seja fruto dos sonhos lindos que eu tenho hoje. E que esses sonhos sejam como as estrelas: que continuem a brilhar, mesmo depois de realizados.
Eu te amo!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Luto!

Luto
contra o que sinto
contra o que vejo
contra o que insiste em me corroer por dentro
os sentidos e as certezas
a escuridão e a clareza
a força e toda a minha surreal fraqueza
o medo e toda a sua doce beleza

Luto
pra não ser mais igual ao que fui
pra não cair do abismo em que me encontro à beira
pra buscar a luz no fim do túnel que não vejo
pra não me perder por entre as árvores secas do caminho que percorro
pra voar sem as asas de cera que roubei de Ícaro
pra ir além e alcançar o infinito dos teus olhos mais uma vez.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Entardecer


vi as cores do teu coração entardecerem
vi as dores do teu coração adormecerem
vi as asas do teu coração se abrirem
e alçarem o vôo mais alto que jamais imaginaram
.
vi a luz brilhar do fundo da tua alma
vi o sol se refletir nos teus belos olhos
senti o ar que respiravas calmamente
teu coração pulsava carinhosamente
.
eu vi a dor se dissipar da tua face
eu vi teu corpo repousar por sobre as flores
eu vi a paz tomando conta do teu ser
eu vi o mundo se espelhar na tua calma.


quadro do caro amigo Carlos Valença

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A decisão

- Joguei tudo pro alto. Desisti. Foge comigo?
- O que?
- Larguei tudo. Não tô cabendo mais aqui. Foge comigo? Vamos pra outro lugar.
- Isso é loucura!
- Eu sei! Mas por essa loucura que eu experimentei a liberdade. Vem, foge comigo!
- Não posso! E a vida que eu construí aqui? Família, casa, emprego... Não dá pra largar tudo agora.
- Clara, para com isso. É tudo o que você sempre quis, sair dessa prisão que se tornou a sua vida. Vem comigo.
- Não fala assim, Deco.
- Mas é verdade, Clara. Você é maior que tudo isso e também já não cabe mais aqui. Vamos embora desse lugar. Vem comigo, Clara! O mundo é nosso!
- Deco, bota esse pé no chão. Como a gente vai viver fora daqui? Sem lugar pra morar, sem conhecer ninguém, sem dinheiro... Deco, para de agir como criança. Você não tem mais idade pra isso. Me escuta...
- Me escuta você, Clara: cadê aquela menina sonhadora que sempre quis ser feliz? Pra onde foi a sua coragem? A sua vontade, Clara? O seu desejo de ser feliz? Você sabe que não é essa vida que você tá levando que vai te fazer feliz. Esse lugar é pequeno demais pra você, Clara. Você merece muito mais.
-  Deco... não fala assim. Eu... eu sou feliz aqui. Apesar de alguns problemas... eu... eu sou feliz, sim.
- Clara, não se engana com isso. Você se acostumou com essa vida. Seu lugar não é aqui!
- Deco, eu não posso...
- Clara, casa comigo!
- O que?
- CASA COMIGO, Clara! Eu te amo!
- Deco!
- Eu te levo pra ver o mundo, Clara. Casa comigo!

~ Carta para nós dois

Confesso, em algum lugar me afeta ter que ouvir e rir de tudo isso. Talvez eu realmente quisesse estar em um lugar diferente do que estou.
Sua paixão é clara e, ainda que doce, explícita. Mas, mesmo assim, não cabe a mim corresponder. A verdade é que você não se encaixa nos planos que eu fiz pra mim e não acho que seja justo te aprisionar a uma vida que não te cabe meramente por capricho.
Não posso te privar de fazer outros planos, de querer alguém que te faça feliz, de me esquecer. Você é o tipo de pessoa que merece ter sempre um motivo pra sorrir. E deve buscá-lo, sim!
Mas o meu egoísmo me traz em amarras tão surreais, que me vejo sem direção quando penso em você.
Tudo o que sei é que te quero sempre sorrindo. Te quero a pessoa mais feliz desse mundo. Te quero meu eterno ombro amigo, meu porto seguro. Te quero comigo. Te quero.
Então descubro que, todo esse tempo, o meu maior defeito foi te querer.
Mas agora me parece tarde. Tarde pra mim, porque, ainda que aos poucos, você foi ocupando o seu coração e reduzindo o meu espaço dentro dele. Tarde pra você, porque, mais uma vez, no auge do meu egoísmo, eu te deixei de lado. Tarde pra nós, porque talvez já não haja mais tempo.
E o que nos resta quando não há mais tempo? Fugir? Fingir? Desistir?
Eu desisto, desisto de fugir e de fingir. E assumo: eu te quero aqui.
Estou na porta de casa, brincando com as chaves. Até quando você vai demorar?

domingo, 8 de agosto de 2010

La fleur volée

me trouxe uma flor roubada, daquelas que tem mais graça. colhida no jardim do vizinho. daquelas que pulam do muro, pedindo pra serem roubadas. levadas à amada que espera no portão.
me trouxe um sorriso discreto, daqueles que tem mais graça. no canto da boca, sem graça, sem jeito, com medo de não aparecer. daqueles que são os mais sinceros e mais contidos. levados à frente quando não se tem mais o que oferecer.
me trouxe um abraço verdadeiro, daqueles que tem mais graça. forte, sincero, único, apaixonado. daqueles que falam por si e não precisam de tempo para terminar. levados ao extremo quando se ama e não precisa mais de palavras.
me trouxe o seu coração. porque já tinha, nele, o meu.