sexta-feira, 30 de abril de 2010

A morte numa taça

Injustiça.
Acusam-me erroneamente de um crime que cometi. Assumo, sou culpado. Mas as acusações são infames!
Carrego a culpa de trazer comigo a luz dos deuses e partilhá-la. Sou acusado de causar trevas ao partilhar a minha luz.



Injustiça! Infâmia!
Devolvam-me o direito à luz.
Não me permitiram defesa, amarraram-me pés e mãos, calaram minha voz, trouxeram-me a morte numa taça e bebi. Envenenei-me de sabedoria e a luz ofuscou-me as vistas.

(quadro A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

La Zingara

Pele morena. Longos cabelos negros. Olhos verdes.
Vestido e lenço de seda vermelha dão vida aos movimentos suaves de sua dança. Argolas, anéis, colares e pulseiras de ouro seguem o ritmo da música que ela acompanha com os pés descalços.
Ela não pertence àquele lugar. Aquela praça é apenas passagem no caminho da bela moça.
Ela não pertence a lugar nenhum. Veio das montanhas e segue em direção ao horizonte. Ela segue as batidas do seu coração e caminha... caminha para nunca mais voltar ao ponto de partida.
Quer se encontrar. E só vai parar de caminhar quando estiver no lugar a que seu coração pertencer.
Lê o destino dos passantes na palma de suas mãos e dança para conseguir algumas moedas afim de continuar o seu caminho.
O que a bela moça não sabe é que o brilho de seus olhos e o movimento dos seus pés e quadris encanta os homens que a vêem dançar.
Do Arcebispo ao soldado do Rei, todos desejam a oportunidade de passar ao menos uma noite ao seu lado. Mas, de todos os homens que a cortejaram, somente por um o coração dela bate mais forte. Aquele que foi coroado tolo diante da cidade, aquele que é diferente, aquele que nunca foi amado... aquele que soa os sinos do alto da torre.

Pesar

A solidão e o vazio que ousaram se aproximar dela tomaram lugar onde não devia, no coração.
Ela sente a tristeza de não ser mais quem era e não agir como gostaria que fosse.
Ela sente o peso de decisões duras que precisou tomar.
Ela sente a fraqueza humana que a impede de seguir em frente.
Ela tem medo de não conseguir sair do fundo do poço em que caiu quando escorregou no orgulho que trazia no peito.
Ela se perdeu... não sabe mais se vai voltar.

domingo, 25 de abril de 2010

rompante

estava quase dormindo e despertei. as palavras me escapoliam feito borboletas raras. e não podia perdê-las. saí da cama num salto, busquei papéis e caneta. sempre em tempo de registrar os pensamentos fujões. comecei a escrever... perdi o sono.

sábado, 24 de abril de 2010

pensamentos soltos

Às vezes me pego pensando naquele telefonema que eu nunca recebi, nas cartas que nunca me foram escritas... nas palavras que nunca foram ditas.
Outras vezes penso nas mensagens que nunca enviei ou nos pensamentos que nunca contei.
Me lembro dos beijos que não aconteceram e das mãos que se soltaram, dos dedos que nunca mais se entrelaçaram.
E é quando me vejo afogada nesses pensamentos, que percebo a falta que você me faz.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Rotina

Ciclo. Os dias começam e terminam com a mesma preocupação: acionar o despertador. Algumas poucas horas para repor fisicamente as energias e menos horas ainda para recarregá-las espiritualmente. O trabalho e as atribuições diárias da vida adulta nos impõem novos hábitos e maneiras de ver o mundo. Crescer faz parte. Mas a poesia sempre existirá. Jamais se perderá porque não fez sol ou por causa do excesso de calor. A poesia é o que sempre haverá.

Uma breve resposta à querida Vanessa.

sábado, 10 de abril de 2010

Penso nela...

Hoje eu me peguei pensando na Mônica de novo. Aquela menina nunca me saiu da cabeça...
Ela mora na casa da frente. E toda vez que passa pela janela, mesmo com as cortinas fechadas, me pego admirando.
Lembro como era na época do colégio... todos os meus amigos me perguntavam como eu conseguia andar com aquela garota estranha, mas eu ainda não via a Mônica como uma garota, essa é a verdade. Demorei a perceber que ela usava saias! Mas ela, também, não fazia muita questão de parecer uma garota.
Na adolescência ela se transformou, virou um mulherão. Aí sim, todos os caras queriam saber como eu andava com ela e porque ela me dava tanta bola. Mal sabiam eles que o que eu mais queria depois que me dei conta de que ela era uma garota, era que ela, realmente, me desse bola. Mas ela me via como o amigo de sempre.
Crescemos juntos, sempre fomos amigos, sabíamos de tudo o que acontecia com o outro... eu sempre adorei conversar com ela. Inventei uma paixão pra ver qual seria a reação dela e ela riu. Disse que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde e me contou que também gostava de alguém. Fez suspense de menina e até hoje não sei quem é. Deve ter sido o primeiro namoradinho que ela teve, um tal de André. O que esse cara nunca soube é que, poucos dias antes de beijá-la, era eu que segurava a mão dela, abraçava e tocava seus lábios delicadamente. Foi o melhor pôr-do-sol da minha vida!
Desde sempre trocamos confidências. A única coisa que eu nunca tive coragem de contar pra Mônica era o que eu sentia por ela. Ainda sinto. Mas pelo jeito não vou poder fazer nada. Ela já está de namorado novo e não me dá mais a mesma atenção de antes, ele ocupa boa parte dos horários livres dela. Até os almoços!
Mesmo assim, saímos juntos e conversamos como sempre. Ainda somos bons amigos...
Acho que preciso arrumar alguém pra passar o tempo até esse novo romance da Mônica ser antigo. Pelo que eu conheço dela, esse é outro namoro que não vai durar...

cidade sorriso tristonho


chora a cidade sorriso...

a tristeza está no ar
quem quer que passe
sente
perto ou longe da dor
quem quer que passe
por onde quer que passe
sente

chora a cidade sorriso...
chuva de lágrimas
mar de dor

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Cidade Sorriso

chora a cidade sorriso
e suas lágrimas escorrem aos montes
formando cachoeiras de sofrimento profundo

chora a cidade sorriso
se desespera por não poder mais sorrir
as poucas forças que restam
se perdem no chorar

chora a cidade sorriso
coração apertado
nó na garganta
tristeza

chove a cidade sorriso.

Vontade de Chumbo

A nova história da Bailarina e seu Soldado

Bailarina e Soldado se conheceram num dia de muito calor na Loja de Brinquedos. O Casarão estava com todas as suas portas e janelas abertas e do jardim da frente chegavam o perfume das flores e algumas serelepes borboletas que vinham colorir o ambiente.
Menos querido que os outros soldadinhos, o Soldado de Chumbo resolveu passear pela Loja, no seu ritmo, diferente da euforia dos seus companheiros que se exercitavam, correndo em círculos. E foi nesse passeio que o Soldado de Chumbo avistou a Bailarina. Ela dançava no alto da estante, na sua reluzente Caixinha de Música.
Foi com uma certa timidez que ele se aproximou da Bailarina e começou as primeiras conversas. No início, ela dançava como se não o visse. Mas com o tempo, passou a gostar daquela companhia que há muito lhe observava de forma tão gentil.
Ela era leve. Alçava vôos bem altos. Almejava ser livre. Tudo o que a Bailarina mais queria era se libertar das suas dores e poder sair da Caixinha de Música. Mas, assim como o peso de chumbo do Soldado, ela tinha suas amarras que não a permitiam ser feliz por inteiro. Seus vôos mais altos eram seus melhores sonhos e seus piores pesadelos. Porque, quando ela acordava e percebia que estava no mesmo lugar, com um de seus pés sempre atados à Caixinha de Música, perdia a vontade de dançar, de repetir aqueles mesmos movimentos de todos os dias.
Ele tinha um peso a mais. Era de chumbo. Não flutuava como a Bailarina. Mas mesmo assim, se apaixonou pela insustentável leveza daquele ser de longas pernas, que dançava gratuitamente, quase pedindo para ser admirada. E ele admirava. Não somente a dança, mas a Bailarina e suas longas pernas.
Se apaixonaram e não foi uma história de amor como as dos contos de fadas. Poucos brinquedos aprovaram a aproximação dos dois e eles começaram a desconfiar se aquilo daria certo. O Soldado não se comportou como a Bailarina esperava e ela se decepcionou com ele.
Depois de um tempo juntos, ela decidiu se separar dele e voltar ao alto de sua estante. Ele, entristecido, não conseguia entender o motivo da separação. E sofreu. Sofreu porque não sabia mais o que fazer. Estava entregue a um sentimento que não existiria mais. Até que decidiu seguir em frente. E uma certeza ecoava dentro dele: "se libertar das amarras do medo não é fácil, nem impossível. É necessário."
E quando ele se libertou, se tornou mais leve que a Bailarina. Marchou, dançou, rodopiou com a Boneca de Pano, mas mais que isso: com todo o seu peso de chumo, o Soldado flutuou... e ela não entendeu como isso podia acontecer. A Bailarina não soube mudar como o Soldado e continuou presa à sua vida de Caixinha de Música. Soldadinhos iam e vinham perto dela. Mas passavam. E ela continuava lá, presa à sua vida de Caixinha de Música.
E ao contrário do que se pensa, a Bailarina e o Soldado de Chumbo foram felizes para sempre... separados. Cada coração encontrou um novo sentido, nele se firmou e seguiu rumo. Um por cada estrada, traçando, ambos, novos caminhos e buscando, a cada passo, uma eternidade que não se constrói. Ele, a cada passo de sua marcha. Ela, em cada passo de sua repetida dança.
E foi assim que o Soldado de Chumbo percebeu que o que batia dentro dele e às vezes o sufocava, se chamava coração.