terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sopra teu gosto

Profana
em teus segredos
perdidos
no tempo não vigiado
onde nos escondemos…

Pandora
com a caixa aberta
desperta
desejos escancarados
roubados
lançados ao vento
atento
releio teus traços
espaços
aos quais não pertenço

Então penso
em nós
nus
ao luar
para amar até nos momentos perdidos
pela multidão
dopada sem amor
como o que vivemos

Queremos
um ao outro.
Devemos
momentos intensos
à lua
que é minha e tua.
Alma nua
e desejos,
imensos beijos.
E carne e corpo e suor.
Nada é maior
que o amor.

Esse amor pleno
de infantil desejo
da lua amorosa
da noite sem cortinas
que nossa infância reviveu.

Parceria com o querido amigo Carlos Valença.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

É virose

Uma espécie (rara) de vírus me consome. Parece ter nascido, já, dentro de mim e ter vida própria. Aparece e desaparece quando bem entende. Na verdade, nem desaparece, permanece, mas se esconde.
E os sintomas são imperceptíveis. É vírus daqueles que não se sente até a situação se agravar. Tanto e a tal ponto de a reação ser externa. Como se todos à volta percebessem que falta alguma coisa ou que um pedaço parece ter ficado adormecido. E eu permaneço intacta, imóvel, insensível.
Esse vírus me ataca esporadicamente. E me tira algo tão meu que só quem me conhece bem sabe quando ele está presente. Conhecer bem nem sempre significa conhecer muito ou há muito tempo, mas reparar os detalhes gritantes que me saltam alma a fora. E há quem repare sem esforço algum. A esses, ainda não entendi como o vírus que me acomete não consegue atingir. Vai ver eles têm um olhar tão apurado que conseguem ver o vírus chegando e se protegem.
É uma virose daquelas! Do tipo que não tem remédio, nem controlado, que resolva. Talvez seja saudade. Talvez seja vazio. Talvez seja excesso. Talvez seja calor. Talvez seja tudo junto. E é esse tudo junto que separa.
O vírus que me pegou foi tão esperto e se escondeu tão bem que não dá nem pra saber quanto tempo ele pode ter de vida. Pode terminar agora, pode durar pra sempre, pode nunca ter existido.
O vírus que me ata os dedos e me priva as palavras parece ter vida própria. E segurar meus textos já desde dentro da alma. E não permitir que eles venham à superfície.
Espero que tenha remédio. Ainda que uma tarde em frente ao mar ou uma boa dose de gargalhadas infinitas.

sábado, 15 de janeiro de 2011

O beijo.

Foi só um beijo. Não tocaram sininhos nem choveram estrelas. Foi só um beijo. Que até já se conhecia. Mas, ainda assim, pareceu diferente. E era. Era novo. Era a marca do fim. Era um fim iminente, esperado, aguardado.... e, por que não, desejado. E seria um divisor de águas. Suas vidas se dividiriam em antes e depois daquele beijo. E assim aconteceu. Antes eram os melhores companheiros, depois mal se viam. Antes eram só sorrisos, depois trocavam farpas pelo olhar. Antes eram cúmplices, depois inimigos mortais. Suas vidas foram marcadas por aquele gesto, aquele beijo, aquele momento que desejariam jamais ter vivido. E tudo o que eram um com o outro se desmoronou como um castelo de areia atingido pelo mar. Nunca mais se reconstruiu. Nunca mais seria igual. A menos que outro gesto os libertasse para outra vida.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O triste fim.

Hoje não chove. A noite está quente e abafada como todas as outras nos últimos dias. Porém há algo de diferente no ar. Não se pode ver as estrelas. Nuvens pesadas cobrem o céu de verão.

Palavras guardadas há muito ameaçam se jogar goela acima e se lançar aos seus rostos, lhes desarmando a cada vírgula, a cada ponto, a cada final. Porque hoje é que se há de decidir o futuro de duas vidas. De suas vidas.

E, de repente, o que se percebe é que nunca mais será saudável. Que é vital a necessidade de não ser. Porque, sendo, causará males que ninguém jamais conseguirá curar.

Madrugada adentro palavras são jogadas ao vento. Atiradas como dardos envenenados que não voltam ao arco. Defeitos são arremessados, cravados como punhais às costas. É essa a sensação: de receber punhais enferrujados às costas. Uma pena. Era tão bonito quando saudável. Uma pena, mesmo.

Agora a decisão foi tomada. E não há mais como voltar. As nuvens pesadas se dissolvem em gotas grossas. Mas não de chuva. Nem de lágrimas. São os sentimentos que desabam goela abaixo. Melhor engolir que piorar uma situação mal resolvida, não resolvida, abandonada.

Jogaram a toalha. Desistiram. Não tinham mais pra onde correr. A dor de insistir era mais forte que a de exterminar os vestígios, os restos, as sobras. O que ficou foram farelos. E não se reconstrói castelos pelas migalhas que sobraram do que se representou um dia.

Foi triste. Mas só por ser fim. Finais entristecem. Mas é tristeza passageira, das que não se demora. Basta o primeiro raio de sol pra colorir sorrisos e afugentar a tristeza e as lembranças ruins. Foi, mesmo, uma pena. Mas tudo que começa precisa terminar. De uma forma ou de outra, tudo tem prazo de validade. E quando um ciclo chega ao fim, é sinal de que uma nova era está se aproximando.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O velho conhecido

Hoje fui conhecer um velho conhecido. Por trás de um par de óculos sem armação e alguns fios brancos, ele me sorriu entre histórias e sonhos. Contou-me de aventuras passadas e ainda não vividas. Mostrou-me como os sonhos são capazes de mover um mundo inteiro.

Pelos olhos daquele velho conhecido, pude ver um universo inteiro que se abria em possibilidades bem debaixo do meu nariz, ao alcance das minhas mãos. E foi pela doçura em sua voz que ouvi o chamado maior.

Hoje fui conhecer um velho conhecido. Ele me sorriu entre histórias e sonhos. Pude ver um universo inteiro que se abria em possibilidades. De braços abertos e mãos estendidas, lhe sorri de volta. Entreguei-lhe a única certeza de que dispunha. E ele a devorou sem pestanejar.

Hoje fui conhecer um velho conhecido. O futuro me sorriu entre histórias e sonhos. Pude ver um universo inteiro que se abria em possibilidades.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A viagem

Era o tipo de viagem que gostaria de estar fazendo: um lugar qualquer, em que pudesse sentir frio e saudade. Uma pessoa muito querida, de preferência você, para que a saudade não fosse tão grande assim. E uma câmera  na mão pra imortalizar as nossas cores.
Você e eu e um imenso campo de girassóis. Ou ainda aquelas construções históricas e dignas de contos de fadas. Ou passeios de bicicleta às margens de um largo rio. Neve. Roupas pesadas. Gorros, luvas e cachecóis. E chocolate quente e você e eu debaixo dos lençóis.



Para completar, um passeio de trem ou de barco e beijos apaixonados naquela velha ponte. Nada poderia ser mais perfeito ou desejado nesse exato instante. Porque tudo o que eu queria era estar sozinha com você o mais longe possível da realidade.


Imagem: "Paris é uma festa...de amor", de Carlos Valença

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dona Flor

Durante dois anos, teve dois namorados. Um que era e um que não era, mas pensava ser.
Florinda era uma moça bonita, jovem, de pele morena e olhos claros. Apaixonada pelo homem da sua vida. Até que seu caminho foi atravessado por um encosto. Nunca soube, na verdade, se o outro existiu de fato ou era imaginação.
O que aconteceu foi que quase deixou escapar o grande amor por uma nuvem que lhe embaçava os olhos. Tola.
Mas o que importa saber é que ela acordou. E se deu conta de que não tinha mais tempo a perder. Subiu no salto e não olhou mais pra trás. Rasgou carta, queimou foto e se desfez de todo e qualquer tipo de recordação daquele tempo que perdeu, que ficou pra trás. Matou e enterrou o passado que foi o maior presente de grego que a vida poderia dar a alguém.
E aí ninguém mais tirou o sorriso daquela mulher.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Carta para olhos pequenos

Foi tão bom te rever e sentir de novo aquele carinho. Me pareceu que todo o tempo que passamos afastados foram férias escolares e que retornamos ao que fora antes.
Ainda acho que não. Mas foi a impressão que eu tive.
Seus pequenos olhos e meu imenso sorriso diziam mais que qualquer palavra que pudéssemos inventar naquele instante. E eu não queria inventar mais nada, só reviver. Ou nem isso, acho que o que eu sempre quis, desde antes, era que nada tivesse mudado e que a vida tivesse seguido seu curso naturalmente, de idas e vindas lá e nós aqui.
Foi bom. Foi muito bom o nosso bom e velho abraço sem pressa, sem pudores, sem medos, sem exageros, sem nada além do que nos une desde o primeiro instante. Laços eternizados em caixas e mais caixas de papel que guardaram todas as nossas lágrimas, nossas razões pra sorrir ou pra chorar, ou nossos instantes de loucura.
E foram palavras, desenhos, traços desses invisíveis laços que estabelecemos num dia qualquer, com uma palavra qualquer, por um motivo qualquer. E hoje estamos aqui.
E foi bom te ver de novo. E não ter vontade de te olhar de lado nem de te jogar indiretas ou trocar ironias a cada frase. Mas foi vontade de te olhar de frente, falar abertamente e conversar. Porque os seus pequenos olhos são as janelas do seu imenso coração.
E as nossas lembranças são lindas. E ainda vão virar história. Pelas minhas palavras e os seus desenhos. Como tinha de ser.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Já não se sabe mais.

E aí já não se sabe mais quanto tempo ficou pra trás desde a última vez.
Tudo ainda parece distante e nublado demais pra se recordar assim, sem motivo. Ou pelo simples fato de não ter mais motivo. Nunca foi preciso ter motivo ou razão. Aliás, razão faltou desde a primeira vez. E na última não foi diferente.

E aí já não se sabe mais quanto tempo ficou pra trás desde a última vez.
As lembranças de um passado nem tão remoto assim passavam em lampejos como num filme amarelado pelo tempo, apático e monocromático. E nem tinha se passado tanto tempo assim. Faltava tempo. Sobrava tempo.

E aí já não se sabe mais quanto tempo ficou pra trás desde a última vez.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Era a saudade

Era a saudade que eu sentia que me prendia os pés ao chão. Que me podava os sonhos. Que me privava os sorrisos.
Era a saudade que eu sentia que não me deixava dormir. Que me torturava toda noite. Que me fazia prisioneiro.
Era a saudade que eu sentia que não me permitia alegrias nem tristezas. Que me paralisava as sensações. Que me tolhia os sentidos.
Era a saudade que eu sentia que não me deixava viver.