quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dona Flor

Durante dois anos, teve dois namorados. Um que era e um que não era, mas pensava ser.
Florinda era uma moça bonita, jovem, de pele morena e olhos claros. Apaixonada pelo homem da sua vida. Até que seu caminho foi atravessado por um encosto. Nunca soube, na verdade, se o outro existiu de fato ou era imaginação.
O que aconteceu foi que quase deixou escapar o grande amor por uma nuvem que lhe embaçava os olhos. Tola.
Mas o que importa saber é que ela acordou. E se deu conta de que não tinha mais tempo a perder. Subiu no salto e não olhou mais pra trás. Rasgou carta, queimou foto e se desfez de todo e qualquer tipo de recordação daquele tempo que perdeu, que ficou pra trás. Matou e enterrou o passado que foi o maior presente de grego que a vida poderia dar a alguém.
E aí ninguém mais tirou o sorriso daquela mulher.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Carta para olhos pequenos

Foi tão bom te rever e sentir de novo aquele carinho. Me pareceu que todo o tempo que passamos afastados foram férias escolares e que retornamos ao que fora antes.
Ainda acho que não. Mas foi a impressão que eu tive.
Seus pequenos olhos e meu imenso sorriso diziam mais que qualquer palavra que pudéssemos inventar naquele instante. E eu não queria inventar mais nada, só reviver. Ou nem isso, acho que o que eu sempre quis, desde antes, era que nada tivesse mudado e que a vida tivesse seguido seu curso naturalmente, de idas e vindas lá e nós aqui.
Foi bom. Foi muito bom o nosso bom e velho abraço sem pressa, sem pudores, sem medos, sem exageros, sem nada além do que nos une desde o primeiro instante. Laços eternizados em caixas e mais caixas de papel que guardaram todas as nossas lágrimas, nossas razões pra sorrir ou pra chorar, ou nossos instantes de loucura.
E foram palavras, desenhos, traços desses invisíveis laços que estabelecemos num dia qualquer, com uma palavra qualquer, por um motivo qualquer. E hoje estamos aqui.
E foi bom te ver de novo. E não ter vontade de te olhar de lado nem de te jogar indiretas ou trocar ironias a cada frase. Mas foi vontade de te olhar de frente, falar abertamente e conversar. Porque os seus pequenos olhos são as janelas do seu imenso coração.
E as nossas lembranças são lindas. E ainda vão virar história. Pelas minhas palavras e os seus desenhos. Como tinha de ser.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Já não se sabe mais.

E aí já não se sabe mais quanto tempo ficou pra trás desde a última vez.
Tudo ainda parece distante e nublado demais pra se recordar assim, sem motivo. Ou pelo simples fato de não ter mais motivo. Nunca foi preciso ter motivo ou razão. Aliás, razão faltou desde a primeira vez. E na última não foi diferente.

E aí já não se sabe mais quanto tempo ficou pra trás desde a última vez.
As lembranças de um passado nem tão remoto assim passavam em lampejos como num filme amarelado pelo tempo, apático e monocromático. E nem tinha se passado tanto tempo assim. Faltava tempo. Sobrava tempo.

E aí já não se sabe mais quanto tempo ficou pra trás desde a última vez.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Era a saudade

Era a saudade que eu sentia que me prendia os pés ao chão. Que me podava os sonhos. Que me privava os sorrisos.
Era a saudade que eu sentia que não me deixava dormir. Que me torturava toda noite. Que me fazia prisioneiro.
Era a saudade que eu sentia que não me permitia alegrias nem tristezas. Que me paralisava as sensações. Que me tolhia os sentidos.
Era a saudade que eu sentia que não me deixava viver.

sábado, 27 de novembro de 2010

Carta para o velho, antigo e ultrapassado.

Queridinho,

Te odeio como antes.
Mas já não quero mais reatar ou fingir que nada aconteceu.
Não adianta, cada passo que tento dar a frente é como se você me empurrasse abismo abaixo sem tempo de voltar atrás.
Te odeio mais que antes.
E é uma raiva tão latente que me ata os pés e mãos e venda os olhos e não permite esquecer.
E a impressão que eu tenho é de que você acha tudo isso divertido e não vai parar até o fim.
Só que o fim está próximo.
E você, no seu ofício de ofender e discordar, não pode perceber.
O fim está próximo.
O jogo acabou.
E foi você quem perdeu.

Com um restinho de pena e todo o meu desdém,
A Dona da História

domingo, 24 de outubro de 2010

Carta para o meu primeiro amor (correspondido)

Quando nos conhecemos, eu era muito nova pra saber o que é o amor. Mas no instante em que nossos olhares se cruzaram no meio daquela multidão, eu tive certeza de que era com você que eu ia descobrir.
Éramos dois adolescentes, vivíamos em um mundo colorido de conto-de-fada. Tínhamos um ao outro e não precisávamos de mais nada. E aí veio a realidade.
Vivíamos em contextos diferentes. Eu terminando o colégio e você já começando a faculdade. E aí veio a distância. Mas, até então, nada que um telefonema ou uma mensagem de texto vez ou outra não resolvessem. Até uma carta eu me lembro de ter escrito e mandado, à moda antiga, pelo correio, pra sua casa. E aí vieram as responsabilidades.
E, aos poucos, fomos perdendo o pouco contato que tivemos. E começamos a fazer outros planos, ver o mundo de outra maneira e seguir caminhos completamente diferentes do que imaginamos. E aí vieram as dúvidas.
Mesmo à distância, e já sem contato, duvidamos que conseguiríamos. E aí veio a fraqueza. 
E, de fato, desistimos. E fizemos outros planos. E nos esquecemos um do outro. E aí veio a saudade.
Muito tempo depois, por obra do acaso ou do divino, tivemos oportunidade de trocar meia dúzia de palavras. E até hoje me lembro da carta que você nunca respondeu, apesar de tantas promessas... E aí veio a lembrança.
E toda vez que ouço aquela música ou vou àquele lugar, é de você que eu me lembro. E é assim que tem que ser até que venham as próximas sensações.


Em algum lugar do meu coração você ainda é o mesmo.

A quermesse

Tudo começou na quermesse. A lua já ia alta no céu e o forró aquecia a noite fria. Regados a alguns copos de quentão, os três amigos avistaram as três amigas e resolveram 'se enturmar'.
A aproximação foi sutil e, antes do final de seus copos, os três meninos já tinham suas professoras particulares de forró. Dançaram e riram, descompromissados, até o sol raiar. Trocaram telefones e promessas de reencontro.
E como toda boa quermesse, no último dia estava lotada. Curiosamente, se encontraram mais uma vez. E a grande surpresa foi ela estar sem as amigas. Ainda assim, se divertiu com os três rapazes, dessa vez sem forró, mas com muito quentão e sorrisos.
A noite terminou com o nascer do sol e muitas gargalhadas. Demorou pra ela se dar conta do que estava acontecendo, mas ele não parava de elogiá-la e querer estar sempre perto. E ela percebeu que sentia o mesmo.
Quando notaram, estavam sozinhos. E, por um instante, seus sorrisos se juntaram em apenas um.
Desde então, todo ano voltam àquela quermesse pra comemorar o que nasceu dali.

sábado, 23 de outubro de 2010

zéfiní

acabou o samba.
acabou a carne, a cerveja, a água pra botar no feijão.
acabou a farofa, o molho, o repolho.
acabou a salada e a sobremesa.
acabou a tarde.
acabou o sol, o céu azul e o passarinho cantando.
acabou o vento, a nuvem, a ferrugem.
acabou a graça e a praça.
acabou.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

~Carta para os meus pensamentos

Eu sempre soube que não seria adeus. Talvez, tivesse sido, hoje fosse mais simples seguir em frente. Os caminhos sempre foram entrelaçados, tanto a ponto de os laços se metamorfosearem em nós cegos que nenhum mortal conseguiria desatar. E não há quem, no mundo, me consiga fazer esquecer você e o tudo o que você representa pra mim.
Eu tenho em você mais que um reflexo, ainda que invertido, meu. Tenho como que uma parte de mim que fugiu antes que eu percebesse e reapareceu com tamanha doçura no brilho do seu olhar que nem se mede. Eu tenho na sua mão meu apoio e no seu braço o meu melhor abraço. O seu sorriso é sempre o meu sorriso. E a sua tormenta, causa e consequência da minha dor.
Eu sempre soube que não seria adeus, mas algum tipo de impulso que nos aproximaria as almas com mais intensidade.

domingo, 19 de setembro de 2010

~dos quereres insanos

Eu quero! Quero de verdade. Quero como nunca quis até então. Quero com o corpo. Quero com a mente. Quero com a alma. Quero com o coração. Eu quero! Quero sua mão na minha. Quero seu abraço. Quero seu perfume entranhado na minha pele. Quero seu gosto misturado ao meu. Quero seu prazer de estar comigo. Quero ser quem eu só sou quando estou com você. Quero saber o que é te sentir. Quero morar em seus olhos. Quero ser a razão do seu sorriso. Quero sonhar o seu sonho mais lindo. Eu quero você!