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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lembranças encaixotadas

Revirando umas caixas velhas, encontrei meus antigos diários. Descobri que essa mania de escrever com riqueza de detalhes me persegue desde que eu aprendi a juntar sílabas. A letra mudou bastante desde o primeiro, mas sempre foi legível, bonita e bem caprichada. Meus cadernos eram sempre os mais bem cuidados. E os mais emprestados, também, na época da escola. Me orgulho disso até hoje, quando vivo meus momentos de nostalgia.
O mais curioso não foi ter encontrado os diários, mas parar pra reler toda aquela baboseira que, à época, era segredo de morte. Somente as minhas melhores amigas (éramos três, como somos até hoje e, espero, seremos por muito tempo) sabiam o que continham aquelas páginas cor de rosa.
As flores estampadas e os adesivos de princesas e fadas sempre foram primordiais. Se faltasse, eu achava que enlouqueceria. Mas enlouqueceria, mesmo, se me roubassem algum daqueles tesouros. Minha vida inteira, passo a passo, estava descrita naquelas linhas. Eram segredos que eu acreditava que levaria para o túmulo. Ledo engano. Mal sabia que eram eles que me divertiriam, anos mais tarde, nas mesas de bar e reuniõezinhas da turma do colégio.
As intrigas com outras meninas, as brincadeiras de bonecas, os amores tão infantis...
Só um segredo eu nunca contei a ninguém. Percebi que esse se mantém secretamente escondido no meu coração ainda hoje, depois de velha, formada, adulta. Escondido não, soterrado em meio a escombros de um passado presente.
Foi quando uma foto caiu do meio de um dos diários... era uma foto das férias que passamos na Bahia com a turma toda. Eternizados naquele pedaço de papel, Eduardo e eu pulávamos na piscina do hotel, de mãos dadas.
Eduardo sempre foi meu amigo. Desde que nos entendemos por gente, andamos juntos. Somos vizinhos até hoje e vamos juntos ao trabalho, partilhamos horas de almoço e de descontração nos fins de semana. Ele é o meu melhor amigo. As meninas tinham ciúme dessa nossa amizade. Talvez por ele ser um dos meninos mais populares da escola, ou por eu dividir a atenção que deveria ser exclusivamente delas. Lembro que íamos juntos para a escola, de bicicleta, que corríamos na praia todas as tardes, que andávamos de patins no clube, que nadávamos todo sábado no mesmo horário, que contávamos tudo um para o outro...
Lembro, como se fosse ontem, o dia em que ele me contou que estava apaixonado pela primeira vez. E quando eu contei a ele que havia me apaixonado, também. Mesmo que não fosse de todo verdade, também não era mentira.
Lembro que combinamos que o nosso primeiro beijo seria um ensaio para não errarmos com as respectivas paixões e nos beijamos de frente para o mar, ao pôr do sol. Lembro como se fosse hoje... e reler nos velhos diários toda a nossa história reacendeu o segredo que eu guardava comigo há muito no fundo do coração.
Emocionadíssima com os momentos que eu pude reviver lendo aquelas páginas desbotadas, ri e chorei uma tarde inteira. Até me esqueci de terminar a arrumação que havia começado. Tomei um banho, arrumei as caixas de volta e fui dormir. Sonhei com Eduardo como há anos não sonhava.

domingo, 14 de março de 2010

~ puberdade

Hoje me senti uma adolescente ouvindo as suas histórias. Nessa idade, a essa altura da vida, você ainda cai nessas armadilhas? Que vergonha, Eduardo!
Você me contava dela como se fosse a última estrela. E seus olhos brilhavam mais que todas as constelações. Parecia a primeira vez que você se apaixonava. Feito adolescente!
Conversei, ri, aconselhei, mas até agora não consigo acreditar no que aconteceu. Foi um dia atípico, uma conversa atípica, um acontecimento atípico! Foi tudo ao mesmo tempo como quando éramos, de fato, adolescentes.
Você me contou da sua nova paixão como se ela fosse a maior descoberta da ciência. E eu tive ciúmes como se você fosse a minha boneca favorita nas mãos de outra pessoa. Sentir isso foi terrível! E confessar, pior ainda.
Sei que é tolice, mas ainda me sinto uma adolescente. Mas o pior de tudo é que eu sei que você se sente igual.

~ posse!

Sabe aquele amigo que se trata quase como bibelô e se tem por favorito?
Mas tão favorito que não se pretende (jamais) dividi-lo com ninguém?
Eu tenho.
E ainda não aprendi a dividir!